Durante o retiro anual do Apostolado da Oração, realizado na Colônia Marcelino, entre os dias 28 e 30 de agosto de 2026, foi oficialmente lançado o Manual do Apostolado da Oração e abençoado o Ícone do Sagrado Coração de Jesus e do Imaculado Coração de Maria.
Encerrando as atividades do sábado, dia 29, às 19h, foi celebrada a Divina Liturgia, presidida pelo Pe. Marcos. Em sua homilia, retomando o tema do retiro, o sacerdote propôs a pergunta: “Como escolho o meu tesouro?” Ao final da celebração, aconteceu um momento especialmente significativo para o Apostolado da Oração: a apresentação e o lançamento do Manual do Apostolado da Oração da Igreja Católica Ucraniana, fruto do trabalho e da dedicação de seus responsáveis. Também foram introduzidos solenemente e abençoados o ícone oficial do Sagrado Coração de Jesus e do Imaculado Coração de Maria, destinados à entronização nas famílias, fortalecendo a devoção ao Coração de Cristo e a confiança na intercessão da Santíssima Virgem Maria. A seguir, a explicação desse precioso ÍCONE.
“Abençoarei as casas em que se achar exposto e for venerado o Ícone do Meu Coração”.
A partir desta nona promessa do Sagrado Coração de Jesus a Santa Margarida Maria Alacoque, a Metropolia São João Batista e a Eparquia Imaculada Conceição apresentam uma iniciativa especial destinada às famílias católicas ucranianas que pertencem ao Apostolado da Oração: a entronização do ícone do Sagrado Coração de Jesus e do Imaculado Coração de Maria.
Essa iniciativa deseja favorecer, em cada família, uma vivência mais profunda desta que é uma das devoções fundamentais do Apostolado da Oração. Mais do que a simples exposição de uma imagem sagrada, a entronização do ícone constitui um verdadeiro ato de fé, pelo qual cada família reconhece e proclama o senhorio de Jesus Cristo sobre o seu lar, colocando-o sob a proteção e o cuidado do Sagrado Coração de Jesus e do Imaculado Coração de Maria. Pintado segundo a tradição bizantina pela iconógrafa Karyn Sayuri, do Atelier Santos Apóstolos (instagram.com/karynsayuri), o ícone integra o Manual do Apostolado da Oração da Igreja Católica Ucraniana, aprovado pelo Arcebispo Metropolita Dom Volodemer Koubetch, O.S.B.M., e pelo Bispo Eparca Dom Meron Mazur, O.S.B.M.
Justamente para favorecer essa iniciativa para que alcance todas as famílias do Apostolado da Oração e seja vivida mais profundamente é que o arquivo do ícone foi disponibilizado gratuitamente, em alta resolução, para download neste link: https://drive.google.com/drive/folders/1SPMq9-dh1eQw-Bzciow0X-mFQHPws4KD Recomenda-se, contudo, que a iniciativa não se reduza à impressão individual do ícone, mas seja vivida com verdadeiro sentido eclesial e comunitário. Por isso, sugere-se que os membros de cada grupo do Apostolado da Oração, juntamente com suas famílias, organizem-se e estabeleçam uma data para levar os ícones à igreja para serem abençoados e, posteriormente, recebidos solenemente das mãos de um sacerdote. Para esse momento de bênção, são especialmente oportunas a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus e as primeiras sextas-feiras de cada mês. Depois de receber a bênção na igreja, cada família poderá levar o ícone para sua casa e realizar a entronização e a consagração conforme o cerimonial previsto no Manual do Apostolado da Oração da Igreja Católica Ucraniana.
Assim, o Ícone do Sagrado Coração de Jesus e do Imaculado Coração de Maria não será apenas colocado em um lugar de destaque no lar de cada família católica ucraniana, mas se tornará um sinal visível da consagração a Cristo. Sua presença recordará a todos os seus membros que o Senhor deve ocupar o centro da vida e que, sob a proteção do Imaculado Coração de Maria, cada lar é chamado a se tornar um lugar de oração, de fé e de amor.
O ícone e a tradição bizantina
Na tradição bizantina, presente também na Igreja Católica Ucraniana, o ícone não é visto simplesmente como uma obra artística ou decorativa. Por meio das cores, dos gestos, das inscrições e dos demais elementos da composição, ele apresenta ao fiel uma realidade que ultrapassa aquilo que os olhos podem ver e o conduz à contemplação e à oração.
A própria possibilidade de representar Cristo em um ícone está ligada ao mistério da Encarnação. O Filho de Deus se tornou verdadeiramente homem e, em Jesus Cristo, o Deus invisível se tornou visível. Por isso, ao representar Cristo, a Igreja também proclama a fé de que Ele é verdadeiro Deus e verdadeiro homem.
A veneração dos ícones não significa adoração da madeira, da pintura ou da imagem. A honra prestada ao ícone dirige-se à pessoa nele representada. É nesse sentido que o ícone pode ser compreendido como uma “janela para a eternidade”: uma imagem visível que aponta para a realidade invisível e ajuda o fiel a elevar o coração a Deus.
Nas famílias ucranianas, é tradicional também ornamentar os ícones com um rushnyk ou bozhnyk – um pano bordado que é colocado ao redor da imagem. Esse costume manifesta a honra e o carinho com que o ícone é recebido no ambiente familiar, integrando a fé cristã à rica tradição cultural ucraniana.
Uma devoção própria
Embora não seja comum encontrarmos ícones do Sagrado Coração de Jesus e do Imaculado Coração de Maria na tradição bizantina, a sua representação não é estranha à tradição da Igreja Católica Ucraniana. A devoção ao Sagrado Coração, na forma em que se desenvolveu e se difundiu particularmente no Ocidente no século XVII, ganhou grande impulso em todo o mundo católico. Ao longo de sua história, porém, os ucranianos acolheram diversas formas de arte e de devoção provenientes do Ocidente, especialmente da tradição artística romana, integrando-as à sua própria tradição. São exemplos disso as representações de Cristo Rei e do Sagrado Coração de Jesus presentes na cultura religiosa ucraniana.
No Brasil, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus está profundamente ligada à história das comunidades ucranianas. Desde a criação, em 1898, do primeiro centro do Apostolado da Oração pelos primeiros imigrantes, essa devoção esteve presente na vida das comunidades e contribuiu para conservar a fé e a vida de oração. O Molében ao Sagrado Coração de Jesus se tornou uma das expressões dessa devoção e continua sendo celebrado por nossas comunidades.
O ícone abençoado durante o retiro anual do Apostolado da Oração segue justamente esse caminho: apresenta a devoção ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria por meio da linguagem e dos elementos próprios da iconografia bizantina, unindo uma devoção profundamente enraizada na vida das comunidades à tradição espiritual e artística católica ucraniana.
A explicação do ícone
A disposição dos Dois Corações expressa a profunda união entre Cristo e sua Mãe na obra da salvação. O Papa Pio XII, na Encíclica Haurietis Aquas, publicada em 1956, recomendou que a devoção ao Sagrado Coração de Jesus fosse estreitamente unida à devoção ao Imaculado Coração de Maria, recordando que “a nossa salvação é fruto da caridade de Jesus Cristo e dos seus padecimentos, aos quais foram intimamente associados o amor e as dores de sua Mãe”.
A posição de Cristo e de Maria
No ícone, Jesus Cristo está à direita de quem o contempla, enquanto a Santíssima Virgem Maria está à esquerda. Essa disposição segue uma antiga linguagem bíblica e iconográfica, na qual a direita é o lugar de honra. O próprio Credo afirma que Cristo “está sentado à direita do Pai”.
Essa posição também pode ser relacionada àquilo que o Papa São Pio X afirma na Encíclica Ad diem illum (1904), ao apresentar Cristo sentado à direita da Majestade Divina e Maria como Rainha junto de seu Filho. Assim, a disposição das duas figuras não é apenas uma escolha estética, mas também possui um significado teológico.
Jesus Cristo e o Sagrado Coração
Cristo aparece com o Sagrado Coração representado sobre o peito. Com a mão direita, formando o cristograma IC XC, abreviação de Ιησοῦς Χριστός (Iesous Christos), que significa “Jesus Cristo”, concede a bênção cristológica, transmitindo a graça divina: o dedo indicador está estendido, formando a letra Ι (iota); o dedo médio está ligeiramente curvado, formando a letra C (sigma); o dedo anelar e o polegar se tocam, formando um Χ (chi); e o dedo mínimo está curvado, formando o segundo C (sigma). Com a mão esquerda, Jesus aponta para o próprio Coração. O gesto de Jesus conduz o olhar do fiel ao centro da devoção: o seu Coração, sinal do amor com que Ele ama a humanidade e convite para que esse amor seja correspondido. No contexto do Apostolado da Oração, o gesto recorda também o chamado a unir a própria vida ao Coração de Cristo e oferecer-se totalmente com Ele ao Pai.
Ao redor de Cristo aparecem as letras IC XC. No interior do halo se encontra a inscrição Ο ΩΝ (Ho On), “Aquele que é”, expressão relacionada à revelação do nome divino em Êxodo 3,14. A inscrição manifesta, assim, a identidade divina de Cristo.
A túnica vermelha e o manto azul seguem uma linguagem tradicional da iconografia cristã, expressando, respectivamente, a divindade e a humanidade de Cristo. Assim, as vestes recordam o mistério da Encarnação: o Filho de Deus, permanecendo verdadeiramente divino, assumiu a nossa humanidade e fez-se homem. A faixa dourada presente em sua veste recorda sua dignidade real e sacerdotal.
Os elementos do Sagrado Coração de Jesus
Maria Santíssima e o Imaculado Coração
Ao lado de Cristo encontra-se a Santíssima Virgem Maria. Seu Imaculado Coração é representado sobre o peito, recordando seu amor por Deus e sua união singular com seu Filho.
Com a mão direita, Maria aponta para o próprio Coração, enquanto a mão esquerda permanece aberta, em atitude de acolhimento e oferta. O gesto recorda sua total disponibilidade à vontade de Deus: “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38).
A túnica azul e o manto vermelho seguem a linguagem simbólica tradicional da iconografia bizantina. O azul recorda sua humanidade, enquanto o vermelho expressa a participação da humanidade santificada na vida divina, segundo o mistério da theosis, a divinização pela graça. As três estrelas presentes no manto de Maria representam a sua virgindade perpétua: virgindade perpétua: antes, durante e depois do parto.
Ao lado da cabeça de Maria encontram-se as letras MP ΘΥ, abreviação de Μήτηρ Θεοῦ (Meter Theou), “Mãe de Deus”. A inscrição proclama o título pelo qual a Igreja reconhece Maria e recorda o dogma da maternidade divina, solenemente afirmado no Concílio de Éfeso, no ano 431.
Os elementos do Imaculado Coração de Maria
Além dos elementos específicos elencados acima, a própria linguagem da obra como um todo possui um significado espiritual:
Assim, todos esses elementos, as cores, os gestos, as inscrições, as proporções e os símbolos, fazem parte de uma mesma linguagem. O ícone não pretende ser apenas um retrato de Jesus e de Maria Santíssima, mas sim destinado à contemplação e à oração, pois, ao contemplá-lo, cada fiel dirige o seu próprio coração para a bem-aventurança eterna.
Ir. Juliane Martinhuk, S.M.I. e Ir. Marco Antônio Pensak, O.S.B.M.