Sínodo dos Bispos da Igreja Católica Ucraniana: Contexto, Dinâmica, Tema principal

Contexto do Sínodo

No contexto da atual guerra, a Igreja desempenha um papel central de resistência espiritual e humanitária. Enfrentando a agressão e invasão russa em grande escala, a Igreja Católica Ucraniana tem atuado diretamente no socorro à população, no apoio aos soldados e na denúncia internacional sobre o gravíssimo crime humanitário do presidente da federação russa, o que constitui um dos maiores genocídios da história.

O cenário de atuação russa envolve vários desafios muito severos, como a perseguição e forte repressão das iniciativas da Igreja. Há relatos de invasões de templos durante as missas, ameaças ao clero e detenção de padres. Instituições de caridade católicas foram formalmente banidas em regiões como Zaporija. Dezenas de clérigos de diversas denominações perderam a vida desde o início do conflito. O Arcebispo Maior Sviatoslav Shevchuk tem classificado as condições extremas do inverno como um genocídio contra a sobrevivência civil, alertando o mundo para a destruição sistemática da rede elétrica e de aquecimento.

Em meio à devastação, paróquias e mosteiros de rito bizantino-ucraniano tornaram-se pontos de acolhimento. Os religiosos prestam assistência básica aos deslocados internos, fornecendo alimentos, abrigo e conforto psicológico para as famílias enlutadas. As lideranças e os bispos greco-católicos ucranianos têm mobilizado a comunidade global em defesa da Ucrânia. O Sínodo Permanente da Igreja Católica Ucraniana tem promovido encontros globais, como as reuniões em Curitiba no Brasil e em outros países para reforçar o repúdio à agressão russa e buscar apoio internacional por uma paz justa e duradoura.

As intenções do presidente da rússia vladimir putin em relação à Ucrânia baseiam-se em objetivos imperialistas. A visão do Kremlin visa o controle total do país vizinho ou a sua divisão, a neutralização militar de Kiev, impedir a entrada da Ucrânia na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e consolidar a anexação de extensos territórios no leste e sul ucranianos. Por sua vez, a intenção do Presidente americano Donald Trump é forçar o fim do conflito por meio de negociações rápidas. Sua estratégia envolve reduzir o apoio militar direto dos EUA, pressionar Kiev a aceitar acordos que têm sido vistos como concessões à rússia e transferir o protagonismo do financiamento e da segurança para aliados europeus da OTAN.

O Vaticano tem mantido diálogo constante com os líderes da Igreja Católica na Ucrânia, condenando o conflito e atuando em missões humanitárias. O Papa Leão XIV declarou que a Ucrânia é parte da Europa e classifica o conflito como uma “guerra sem sentido”, condenando a violência contra civis. Insistentemente, ele exige o fim dos bombardeios, disponibilizou o Vaticano para mediar com o Presidente Volodemer Zelensky as negociações para a troca de prisioneiros e o resgate de crianças ucranianas deportadas.

O Núncio Apostólico na Ucrânia, Arcebispo Visvaldas Kulbokas, atuando no campo diplomático, numa atitude de proximidade e solidariedade, procura dar o máximo apoio à Igreja Greco-Católica Ucraniana e à nação ucraniana.

Nesse contexto dramático, desafiador e absurdo, além de injusto, imoral e desumano, o sofrido povo ucraniano revela uma resiliência extraordinária, a começar pelo clero católico, que em altíssimo número, 92%, se declara feliz em sua vocação e missão, apesar da situação de extrema necessidade e sofrimento. Observa-se atualmente na Ucrânia uma busca de Deus, muitas conversões e adesão à Igreja Católica Ucraniana, porque ela é a voz do povo, fala a verdade, defende a pátria e, principalmente, presta ajuda aos necessitados dentro dos princípios cristãos fundamentados no amor, misericórdia e caridade.

Dinâmica do Sínodo

 Natureza do Sínodo

O Sínodo dos Bispos é o órgão máximo de governo da Igreja Greco-Católica Ucraniana. Juntamente com o Arcebispo Maior, é o Sínodo que toma as decisões legislativas, administrativas, pastorais e judiciais mais importantes relativas à vida da Igreja na Ucrânia e no exterior.

O Sínodo inclui todos os bispos ordenados – eparquiais, titulares e eméritos – tanto os que servem na Ucrânia quanto os que pastoreiam em dezenas de países ao redor do mundo. Assim, é um sinal visível da unidade de toda a Igreja Greco-Católica Ucraniana, globalmente falando, independentemente das fronteiras continentais e das fronteiras nacionais.

Sínodo – principal atividade eclesial

No Sínodo, se forma a visão do desenvolvimento da Igreja. Durante as reuniões, os bispos leem os “sinais dos tempos”, analisam os desafios da atualidade, refletem sobre as necessidades do clero, dos religiosos e dos leigos, adotam resoluções, aprovam documentos importantes, elegem novos bispos e determinam os rumos do trabalho pastoral. A maioria das decisões que são posteriormente implementadas nas eparquias, institutos de vida consagrada e paróquias começa com a reflexão sinodal.

O Sínodo não é um evento isolado, porque os bispos trabalham sinodalmente, isto é, em conjunto, ao longo do ano. A reunião anual, denominada “sínodo”, proporciona a oportunidade de se encontrarem pessoalmente e discutirem as questões mais importantes da vida da Igreja, ouvirem as experiências uns dos outros e trabalharem juntos para desenvolver soluções comuns.

Realização do Sínodo

Apesar da ideia geralmente difundida, o Sínodo não é apenas uma série de sessões de trabalho. Cada dia começa com uma oração comunitária e a Divina Liturgia. Seguem-se as sessões de trabalho, durante as quais os bispos ouvem relatórios, trabalham em grupos, fazem perguntas, trocam experiências de ministério em diferentes países e, juntos, buscam respostas para os desafios da atualidade.

Após as discussões, propostas específicas são formuladas e colocadas em votação. Assim, o Sínodo não é apenas um lugar para tomar decisões, mas também uma escola para o discernimento comum da vontade de Deus para toda a Igreja, sob a guia do Espírito Santo.

Participantes do Sínodo

Somente os bispos são membros de pleno direito do Sínodo, com direito a voto. No entanto, dependendo do tema, teólogos, especialistas em direito canônico, sociólogos, psicólogos, pedagogos e especialistas de outras áreas da vida acadêmica e da Igreja também participam de reuniões específicas, contribuindo para uma compreensão mais profunda das questões em pauta. Contudo, a decisão final sempre cabe aos membros efetivos do Sínodo.

Decisões do Sínodo

O Sínodo não se dedica apenas a discussões teóricas. Suas decisões dizem respeito a aspectos específicos da vida da Igreja: pastoral, vida litúrgica, catequese, formação do clero, atividades das estruturas eclesiais, direito canônico, serviço social, evangelização e muitas outras áreas.

Após a conclusão do Sínodo, essas decisões, na forma de resoluções, são gradualmente implementadas na vida das dioceses e paróquias. É por isso que cada Sínodo tem consequências a longo prazo que são sentidas por sacerdotes, pessoas consagradas e leigos.

Тema principal do Sínodo: vocações

Cada Sínodo trata de um tema principal, específico, que corresponde aos desafios mais urgentes do momento. De acordo com as decisões do Sínodo anterior, em 2026 os bispos consideraram o tema “Acompanhamento pastoral das vocações ao sacerdócio e ao monasticismo”.

Vale ressaltar que não se tratou apenas do número de seminaristas ou candidatos à vida monástica. A Igreja, antes de tudo, busca compreender como ajudar um jovem a ouvir a voz de Deus, reconhecer sua vocação, receber a orientação espiritual adequada e não ter medo de dizer “sim” a Deus. Este tema torna-se especialmente relevante no contexto da guerra da rússia contra a Ucrânia, quando um grande número de jovens vivencia incertezas, perdas, desespero e profundas crises existenciais. Nos últimos anos, a Ucrânia tem vivenciado uma guerra cruel e devastadora, migração em massa, crise demográfica e mudanças geracionais. Tudo isso também afeta a vida da Igreja.

Uma vocação não nasce em um seminário. Na maioria das vezes, começa na família, se fortalece na paróquia, se forma na comunidade jovem e cresce junto com pessoas que, com suas próprias vidas, testemunham a beleza de servir a Deus. Portanto, cultivar vocações não é responsabilidade apenas de bispos, padres, religiosas e religiosos. Toda família cristã, todo catequista, todo líder jovem e toda comunidade paroquial podem se tornar o ambiente do qual o Senhor fará nascer novos sacerdotes e consagrados, consagradas.

Todas as sessões do dia 2 de julho foram dedicadas ao tema principal. O primeiro dos dois blocos deste dia foi dedicado às vocações sacerdotais. Abordou-se os desafios contemporâneos, a formação dos futuros sacerdotes e a responsabilidade da Igreja em cultivar as vocações. O relatório principal foi apresentado por Dom Bohdan Danylo, Presidente da Comissão Patriarcal para o Clero da Igreja Greco-Católica Ucraniana e pelos seguintes palestrantes: Pe. Taras Putko, Reitor do Seminário Teológico de Ivano-Frankivsk, que leva o nome do Hieromártir São Josafat; Pe. Andriy Onuferko, Protossincelo da Eparquia de Toronto (Canadá); Pe. Ihor Boyko, Diretor da Fundação Beneficente do Hospital Sheptytsky, que apresentou suas realizações, baseadas em seus muitos anos de experiência como Reitor do Seminário Teológico do Espírito Santo de Lviv.

Dom Bohdan pediu que encarássemos os desafios da modernidade com esperança e confiança no chamado de Deus. Ele enfatizou que uma vocação não pode ser “criada” por programas ou estratégias – ela nasce onde a fé é ativa: na família, na comunidade e na Igreja. É por isso que a resposta aos desafios atuais deve ser: apoiar as famílias, restaurar a cultura da paternidade espiritual e humana, desenvolver comunidades cristãs vivas e formar sacerdotes capazes de serem verdadeiros pais espirituais para o seu povo. “Se disséssemos que não há vocações hoje, significaria que Deus não está fazendo nada. Mas Ele está agindo. A questão é se estou respondendo ao Seu chamado. Espero que, durante este Sínodo, muitos jovens estejam pensando no sacerdócio. Todos os dias aqui, diante do trono da Mãe de Deus em Zarvanytsia, rezo por cada um deles, porque quero que respondam ‘sim’ ao seu chamado”, compartilhou o Bispo.

“Se eu disser que não há vocações hoje, significaria que Deus não está fazendo nada. Mas Ele está agindo. A questão é se estou respondendo ao Seu chamado. Espero que, durante este Sínodo, muitos jovens estejam pensando no sacerdócio. Todos os dias aqui, diante do altar da Mãe de Deus em Zarvanytsia, rezo por cada um deles, porque quero que respondam ‘sim’ ao seu chamado”, enfatizou o Bispo. Por fim, Dom Bohdan lembrou que a vocação não se limita ao sacerdócio, porque todos os cristãos são chamados a viver o Evangelho proclamado pelos apóstolos e a tornarem-se testemunhas da fé. “Cada um de nós é chamado hoje – aqui e agora – a ser discípulo de Cristo e testemunha do Evangelho em nossas vidas”, concluiu.

Ainda no dia 2 de julho, os bispos dedicaram um bloco temático específico às vocações à vida consagrada, debatendo os contextos em que as vocações surgem hoje, os desafios do seu discernimento e o papel dos jovens, das famílias e das comunidades religiosas na sua formação. O relatório principal foi apresentado pelo Presidente da Comissão Patriarcal para Assuntos Monásticos da Igreja Greco-Católica Ucraniana, Dom Mykhailo Bubnii. Os demais palestrantes foram: Pe. Sava Masnyk, da Ordem Estudita, a Irmã Kateryna Molochy, da Congregação das Irmãs Missionárias do Santíssimo Redentor, Pe. Andriy Syvak, da Companhia de Jesus.

Dom Mykhailo Bubnii afirmou que a preparação para a discussão sinodal começou com uma análise do estado atual da vida consagrada na Igreja Greco-Católica Ucraniana. A Comissão Patriarcal realizou um estudo abrangente entre pessoas que ingressaram na vida consagrada desde 2015, a fim de compreender quem hoje ingressa nas comunidades religiosas, como nascem as vocações e quais os desafios enfrentados pelos jovens. “Identificamos três ambientes principais: a juventude, que é o alicerce das vocações; a família, que educa os filhos na fé; e as próprias comunidades religiosas, que são chamadas a cultivar e acompanhar as vocações”, observou o Bispo.

Resumindo os relatórios e pesquisas, Dom Mykhailo disse: “Vimos que o monasticismo atual é alegre e feliz em sua vocação. Isso nos deixa muito felizes, porque significa que as pessoas que responderam ao chamado de Deus fizeram a escolha certa. Portanto, convidamos com alegria os jovens a não terem medo da voz de Deus, a se abrirem para ela e a servirem a Deus, à Igreja e às pessoas com ousadia”.