I Congresso Missionário de Seminaristas

Nos dias 10 a 15 de dezembro de 2018, nas dependências da Diocese de São José dos Pinhais-PR, Regional Sul II, transcorreu o I Congresso Missionário de Seminaristas-Sulão, cujo tema foi: “O Espírito do Senhor repousa sobre mim e me envia a anunciar aos pobres o Evangelho” (Lc 4,18), abrangendo os Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo, totalizando 88 Seminaristas, os quais ficaram hospedados nas dependências do Seminário Maria Mãe da Igreja. O evento teve por objetivo despertar a consciência de missão, bem como demonstrar o real significado que este termo possui em si e qual a importância que o mesmo possui na vida dos cristãos, tendo em vista que ser cristão tem como consequência ser missionário, pois, do contrário, significa que o cristão não está intimamente ligado a Jesus Cristo, exemplo supremo de missionário, e seus ensinamentos, não podendo ser chamado de cristão.

No primeiro dia, segunda-feira, dia 10, no período vespertino, ocorreu a acolhida dos congressistas na Sede das Associações Católicas e as necessárias orientações para o bom andamento do congresso. Em seguida, foi ministrada a primeira palestra com o tema Fundamentação da missão pelo Pe. Antônio Niemiec, Secretário Nacional das Pontifícias Obras Missionárias (POM).­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­ O Pe. Antônio discorreu sobre a mudança de perspectiva que o Concílio Vaticano II trouxe para a Igreja no mundo; dito de outra forma, uma Igreja peregrina que é, por natureza, missionária. O Palestrante continuou falando sobre as perspectivas que o Documento de Aparecida trouxe para Igreja na América Latina. Ambos os documentos apresentam o estado permanente de missão que deve ser assumido por todos os cristãos batizados, pois, ou o cristão vive a missionariedade ou deixa de ser cristão; afinal, se é cristão, é missionário. Discorreu sobre os desafios que o verdadeiro missionário irá encontrar, mas que, com a paixão pela missão, poderão ser superados. Após a palestra, os congressistas se dirigiram para a Catedral São José para a celebração da Santa Missa, presidida por Dom Celso Antônio Marchiori, Bispo da Diocese de São José dos Pinhais.

Na terça-feira, dia 11, a primeira atividade dos congressistas foi a oração das Laudes na Matriz Catedral São José. Após o café da manhã, na Sede das Associações Católicas, foi dada a palestra Vocação e missão: perspectivas a partir da Ratio Fundamentalis e do CELAM, que foi ministrada pelo Pe. Cesar Braga. Ao discorrer sobre o marco histórico, ele disse que, sobretudo, com o Concílio Vaticano II e com a celebração do seu cinquentenário, houveram perspectivas fundamentadas na Sagrada Escritura e na Tradição, com um forte acento à consciência missionária, tornando-se assim um sinal de esperança e confiança no futuro e na renovação. O Palestrante enfatizou a necessidade do discernimento dos sinais dos tempos que o missionário precisa ter.

Num segundo momento, após o intervalo, o referido Palestrante discorreu sobre o bom êxito da missão como resultado de uma boa convivência com a comunidade, ou seja, a necessidade de haver uma humanização, voltada pela busca da sensibilidade, respeito, educação e união. Fazendo um estudo do espírito da Ratio Fundamentalis Institionis Sacerdotalis, CELAM e os documentos atuais do Sumo Pontífice Papa Francisco, ele afirmou que ambos demonstram uma opção preferencial pelos pobres, oprimidos e necessitados, bem como a necessidade de uma Igreja em saída. Esta deve levar a mensagem de Cristo, que consiste na beleza do amor salvífico de Deus, manifestado em Jesus Cristo, rumo às periferias existenciais, fazendo um convite para que todos os cristãos, observando os sinais dos tempos, sejam chamados a ser missionários evangelizadores.

Após o almoço, com o tema O Espírito do Senhor repousa sobre mim e me envia a anunciar aos pobres o Evangelho, baseado em Lc 4,18, a palestra ministrada por Dom Esmeraldo Barreto de Farias, ­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Missionária e Cooperação Intereclesial da CNBB, abordada em dois momentos, apresentou a missão de Cristo, que se fez pobre e se identificou com os pobres, como um desafio para a Igreja. Com base na Exortação Apostólica Evangelii gaudium e na Sagrada Escritura, disse que Cristo foi enviado para realizar a vontade do Pai a fim de manifestar a sua misericórdia e proclamar o Reino. Jesus não excluiu ninguém, demonstrando assim a compaixão divina; por isso, a Igreja também deve seguir seu exemplo. Com a sua ação, necessitará ser a expressão de um Deus aliado dos pobres, mesmo que com isto ela corra o risco de ser contada entre os excluídos. A Igreja não pode ter medo de estar presente no meio dos que dela precisam. Por fim, Dom Esmeraldo, discorreu apresentando que a evangelização dos pobres é um desafio para a Igreja, mas que, simultaneamente, é o que lhe dá identidade.

Na quarta-feira, dia 12, a primeira atividade dos congressistas foi a oração das Laudes na Matriz Catedral São José e logo após tiveram o café da manhã na Sede das Associações Católicas. Aí ocorreu a palestra com o Dr. Bortolo Valle desenvolvendo a seguinte temática:  Ética e misericórdia nas periferias existenciais. As periferias da existência são produzidas por uma lógica identitária inclusivista, ou seja, uma ordem que se justifica dando uma certa igualdade no modo de pensar ser e agir, que inclui membros que comungam daquilo que os identificam, mas excluem aqueles que são contrários. A exclusão sempre existiu nos seus mais variados campos, todavia, nunca houve um discurso racional que a justificasse. No segundo momento, discorrendo sobre a ética, Bortolo afirmou que nós, enquanto indivíduos, nunca nos dirigimos a outra pessoa de forma neutra; em outros termos, sempre vamos ao outro com as nossas lógicas. Quanto aos modos como vamos ao outro, muitas vezes nos dirigimos a outra pessoa por emoção, pela natureza, pelo medo, pela obrigação, pela razão e pela indiferença, modos estes com os quais devemos ter cuidado, pois muitas vezes são superficiais. A misericórdia não se reduz a uma mera caridade, mas se trata do rosto de Deus, tão insistentemente ressaltado pelo Papa Francisco.

No dia 13, quinta-feira, os congressistas se dirigiram para a Catedral São José para a oração das Laudes e logo após à Associação Católica para o café e em seguida ao auditório para a primeira palestra do dia, com o Padre Antônio Niemiec, que trabalhou o tema Organização missionária no Brasil.

Primeiramente, o Padre fez algumas considerações sobre a Igreja no Brasil: um novo passo; um novo período; novas circunstâncias; a novidade do Evangelho; revitalizar nosso modo de ser católico. Ele destacou que nossa Igreja deve estar em constante mudança, uma conversão eclesial que tem a finalidade Jesus Cristo (Unitatis Redintegratio, 2). Segundo os ensinamentos do Papa Francisco, a missão significa muito mais do que uma função, uma profissão ou uma tarefa; é o que envolve e ocupa a totalidade de sua vida. O que chama atenção é a característica que o padre deve ter dentro de sua comunidade: não deve se preocupar com as coisas secundárias, materiais, mas sim com as coisas primeiras, que é Jesus Cristo, o serviço aos irmãos, o estar presente no meio das pessoas, das famílias, ouvi-las e ajudá-las, ser um bom sacerdote igual ao mestre Jesus Cristo.

Às doze horas, rezou-se a Oração do Ângelus e, em seguida, foi servido o almoço. Às 13h45min, teve cantos para animação até o início da palestra com Dom José Antonio Peruzzo sobre A identidade missionária de todo batizado, uma Igreja em saída.

Dom José baseou toda sua fala na Sagrada Escritura em paralelo com os documentos da Igreja. Segundo ele, toda a missão se baseia na Bíblia e também na oração, oração profunda dos textos bíblicos. Se não formos orantes, nunca seremos missionários. Quando há apreço pela missão, as respostas surgem. Cultivar a missionariedade é seguir o exemplo de Paulo, seu amor pela comunidade. A verdadeira Igreja é missionária, aquela que tem como fundamento fazer aquilo que Cristo fez. A alegria do Evangelho, pautada pelo Papa Francisco, é a identidade da nossa Igreja. Quando somos convicto disso, então estamos impulsionados pelo Espirito Santo a sermos missionários, dentro da nossa casa, trabalho, em nossa comunidade e em todo o mundo, a exemplo de Paulo, que resumiu o sentido da sua vocação e da sua missão: “Deus, porém, me escolheu antes de eu nascer e me chamou por sua graça, quando Ele resolveu revelar em mim o seu Filho, para que eu O anunciasse entre os pagãos” (Gl 1,15-16). Ele não se importou com as dificuldades, mas o amor por Cristo e pela missão que lhe foi incumbido, fez com que ele enfrentasse tudo e todos em prol do Reino de Deus. Junto com Paulo, temos a certeza de que o caminho da fé e missão não significa conquistar a Deus, mas, pelo contrário, ser conquistado por Ele; mais ainda, ir ao encontro do irmão. A fé é um render-se a Deus que se revela e a missão testemunha esse Deus que se revela: “fui conquistado por Jesus Cristo” (Fl 3,12). A conversão não foi fácil. O amor de Cristo tornou-se a força motivadora de toda a ação evangelizadora e missionária paulina. De fato, como os homens poderiam ter o amor de Cristo sem alguém que o anunciasse ou testemunhasse? (Rm 10,13-15).

Às 17h30min, realizou-se a última palestra do dia com o Padre Alex, abordando o tema A missão ad intra e seus desafios. Ele destacou alguns pontos importantes que nos faz refletir nosso modo de sermos missionários: a missão não brota apenas do planejamento, mas sim da mística, do encontro com Jesus; ser missionário é se encontrar verdadeiramente com Jesus e ir até o outro; é ser como Jesus, que entrou nas casas dos outros, na vida dos outros e transformou a vida dos outros. Transformaremos a vida dos outros através da nossa vida e do nosso testemunho.

Logo após a palestra, todos se dirigiram para a Catedral a fim de se preparar para a Santa Missa, celebrada às 19 horas por Dom Sergio Artur Braschi, Bispo Diocesano de Ponta Grossa. Em seguida, houve o jantar e o retorno para o Seminário.

No dia 14, sexta-feira, às 8 horas: oração das Laudes na Matriz, em seguida café. Às 9h15min – palestra com o Bispo da Diocese de São José dos Pinhais, Dom Celso Antônio Marchiori, tendo como tema Espiritualidade diocesana e missão. Dom Celso iniciou a conversa com o texto do evangelista Lucas 10,38-42. Ele destacou Maria como a primeira missionária, modelo de missão através da sua vida de oração e entrega total a Deus. O fazer missão é consequência de estar com Jesus. O Bispo elencou quatro pontos do documento Ad gentes para explicar a característica de um discípulo missionário: 1º O discípulo missionário deixa-se conduzir pelo Espirito Santo; 2º O missionário deve se identificar com seu povo; 3º Ama a Igreja e os homens como Jesus amou; 4º O verdadeiro missionário é santo, mas não deve ser legalista e nem perfeccionista. Enfim, todo esse pensamento se resumo em uma frase: “O missionário é o homem da caridade e deve gastar sua vida em favor de seu povo”. Ele deve ser impelido pelo zelo das almas.

Às 10h45min, foi ministrada a última palestra do congresso. Mr. Rita Albino falou sobre empreendedorismo religioso: Projeto e planejamento a favor da evangelização. Rita fez uma pergunta: o que é empreender? Logo se pensa que isso não tem nada a ver com a Igreja. “Estamos totalmente enganados”, disse ela. Empreender é encontrar um modo novo de fazer algo que já existe. É o que a Igreja precisa: ela é missionaria, mas precisa achar novos meios que condigam com a realidade e a sociedade em que estamos; cada vez mais, ela deve buscar meios mais eficazes para a evangelização. Só assim caminhará em trilhos condizentes com a realidade. Ser missionário é ter auto-liderança, liderança de grupo, organizacional e social. Mas o mundo e a Igreja precisam muito mais, precisa de líderes apaixonados por Jesus, humildes (Jo 1,23), que apoiam as pessoas a se tornarem melhores.

Servido o almoço, os congressistas foram para a Comunidade Santa Rita fazer missão. Antes foram dadas algumas orientações. De dois em dois, os seminaristas saíram para as ruas, batendo de porta em porta para conversar com as pessoas, rezar juntos, saber o que cada família e cada pessoa está passando. Foi um momento marcante, pois pudemos sentir na pele as dificuldades que muitos passam. Nós, muitas das vezes, ou quase sempre pensamos que está tudo bem. Essa é uma missão mais importante que a Igreja deve fazer, estando com e ouvindo as pessoas, vendo o que elas realmente necessitam. Às vezes, basta só escutar, outras, uma oração; e não se descartam algumas palavras de apoio e conforto. Por isso, esse momento, mesmo com um sol escaldante, marcou muito a vida de quem participou, tendo a experiência de levar a Cristo a todas essas pessoas.

Após a missão, às 19 horas, foi celebrada a Missa, na capela Santa Rita, e em seguida foi servido um jantar oferecido pela comunidade.

No sábado, dia 15, de manhã, teve a oração das Laudes na Matriz e em seguida o café. Logo após o café, foi o momento para a coordenação do COMISE regional se reunirem e avaliarem o plano de ação trienal. Cada regional se reuniu para discutir como está o andamento do COMISE em cada diocese. Às 11 horas, foi celebrada a Santa Missa e em seguida foi servido o almoço de despedida. Ao término, os Seminaristas participantes do congresso retornaram para as suas casas de formação.

Durante os cinco dias, os Seminaristas de várias dioceses puderam ter uma proximidade com o agir missionário da Igreja. Foram várias palestras com um único objetivo de apresentar o processo de caminhada missionária diante dos desafios que a Igreja enfrenta nos dias de hoje. Na sexta-feira, dia 14, os Seminaristas tiveram a oportunidade de ser missionários por algumas horas, batendo de casa em casa, conversando e rezando com cada família. Foi um momento marcante, de sentir na pele o que é ser missionário, de estar com o povo, que, muitas vezes, está esquecido por nós.

A partir dessa experiência, pode-se perceber que o processo missionário não é algo do passado, mas deve ser uma preocupação para o presente e para o futuro. O importante é colocar a Igreja em estado permanente de missão e, por isso, não pode existir nenhuma comunidade cristã que não seja missionária, porque todos somos chamados a ir e anunciar a Cristo. Por excelência, a missão se fundamenta em Deus, tem sua origem no “Amor fontal do Pai – Sair de Si”. O documento do Vaticano II Ad Gentes diz que a natureza missionária e sua origem procede do Filho e do Espírito Santo, segundo o desígnio do Pai. Não se pode escolher ser missionário ou não, estando na Igreja, porque todos somos missionários, a Igreja é para a missão. A Igreja não tem uma missão, mas é Deus que tem uma Igreja para a sua missão. Segundo o decreto Ad gentes, 29, “A atividade missionaria é a principal e mais sagrada atividade da Igreja”.

O congresso focado nos seminaristas, os protagonistas missionários, teve por objetivo intensificar nos futuros presbíteros a paixão pela missão, com sólida espiritualidade missionária, para responder com ousadia e criatividade aos desafios da evangelização, na perspectiva de uma “Igreja em saída”. A vida missionaria se centra nesse encontro decisivo em que somos chamados a anunciar. A comunidade cristã, Igreja, nasce para isso, para testemunhar profeticamente a pessoa de Jesus Cristo, por isso, uma Igreja em saída. Não se compreende uma Igreja missionaria, que leva a Boa Nova de Cristo, fechada entre quatro paredes, preocupada apenas com os rituais. A Igreja é muito mais do que isso, é formada pelo povo de Deus e deve estar no meio do povo, para bem testemunhar as maravilhas de Deus através de sua palavra.

Enfim, anunciar o Evangelho é uma ordem e uma necessidade interior, existencial, que exige a dedicação de toda a vida. Na primeira carta aos Tessalonicenses, a carta que Paulo escreveu por primeiro, ele afirma: “Queríamos tanto bem a vocês, que estávamos prontos a dar-lhes não somente o Evangelho de Deus, mas até a nossa própria vida” (1Ts 2,8). Ser missionário é ser como Jesus, é entrar nas casas dos outros, na vida dos outros e transformar a vida das pessoas através da nossa vida, do testemunho de Cristo; é levar Cristo para essas pessoas com nossa fé, espiritualidade e oração. “Saiamos, saiamos para oferecer a vida de Jesus Cristo” (EG).

Texto: Seminaristas Michael de Lima Barbusa e Thiago Paulo Protexe

Fotos: Coordenação do COMISE