85º do Genocídio Holodomor

Junto de seu povo espalhado pelo planeta, com a honrosa solidariedade das nações que já reconheceram oficialmente o maior genocídio da história, em várias celebrações dentro e fora do país, neste ano de 2018, a Ucrânia lembrou a grande, vergonhosa e absurda ação stalinista do bárbaro crime conhecido como Holodomor, palavra ucraniana que quer dizer “deixar morrer de fome”, “morrer de inanição”. E pode-se lembrar as vítimas dessa atrocidade como “holodomortos” – mortos pela fome – “holod”. Assim como o holocausto nazista contra os judeus, o Holodomor consistiu em um genocídio contra a população da Ucrânia empreendido pelo sistema totalitário do famigerado comunismo soviético liderado por Stalin. Também no Brasil foram muitos os eventos em homenagem dos milhões de seres humanos barbaramente dizimados na Ucrânia, principalmente nos anos de 1932-33. Entre outros eventos importantes, a presente matéria recorda alguns.

No dia 30 de setembro, a comunidade ucraniana no Brasil juntou-se à ação internacional “Acendemos uma vela da memória” em recordação aos 85 anos do Holodomor. A ação foi realizada no Memorial Ucraniano de Curitiba, Parque Tingui, com a participação do Embaixador da Ucrânia no Brasil Sr. Rostyslav Tronenko, das autoridades das nossas Igrejas e coletividades ucranianas, com a presença de numerosos membros da comunidade local, especialmente jovens e crianças, amigos representantes da sociedade brasileira. A cerimônia religiosa fúnebre ecumênica “Panakheda” foi presidida pelos representantes das Igrejas Ortodoxa e Católica.

Os rituais mais marcantes foram: todos os presentes acenderam velas acesas em memória das vítimas; crianças da Escolinha de Sábado Lecia Ukrainka e do Grupo Folclórico Poltava leram nomes de 85 crianças mortas, citadas nas listas de milhões de pessoas falecidas, elencadas pelo Museu Nacional da Ucrânia “Memorial de Vítimas do Holodomor” de Kiev. Ao final, foi inaugurada a exposição de 10 painéis sobre o Holodomor, que permanecerá dentro do Memorial Ucraniano de Curitiba. Nos marcos da ação do Congresso Mundial dos Ucranianos, as cerimônias fúnebres aconteceram também nas cidades brasileiras de Osasco e São Paulo.

Dia 20 de novembro, às 20 horas, no Espaço Cultural da Capela Santa Maria, Rua Conselheiro Laurindo, 273, realizou-se um concerto coral e musical em homenagem às vítimas do genocídio ucraniano, apresentado pela Sociedade Ucraniana do Brasil, Folclore Ucraniano Barvinok e Ladies Ensemble. Ao preço de R$ 20,00 e doação de um quilo de alimentos que foi entregue ao Asilo São Vicente de Paulo, o público presente emocionou-se com a linda apresentação que contou com a presença do Cônsul Honorário da Ucrânia no Paraná Dr. Mariano Czaikowski e convidados do corpo consular atuantes no Estado do Paraná. O conserto foi precedido por uma confraternização preparada pela chef Vania Krekniski Maciel e sua equipe.

Dia 24 de novembro, às 10 horas, no Memorial Ucraniano de Curitiba, situado no Parque Tingui, foi celebrada uma “Panakheda” em homenagem às vítimas do Holodomor. Com a presença do Cônsul Honorário Sr. Mariano Czaikowski, representando o Embaixada Ucraniana no Brasil e a RCUB, e demais representantes de entidades ucraniano-brasileiras, os Arcebispos das nossas Igrejas Católica e Ortodoxa Dom Volodemer e Dom Jeremias presidiram a celebração fúnebre. Dom Volodemer preparou uma oração especial (publicada abaixo) para a oportunidade e, durante a proclamação da mesma, ele pediu um minuto de silêncio pelas vítimas homenageadas. Ao final, Dom Jeremias e o Sr. Mariano fizeram uma rápida reflexão sobre a tragédia humanitária e apontaram atitudes evangélicas e humanas concretas a serem vividas pelos descendentes dos nossos mártires e heróis. Todos os presentes ainda puderam prestar uma singela homenagem aos “holodomortos”, acendendo velas e depositando-as no monumento que lhes foi consagrado.

Dia 30 de novembro, termina a exposição sobre o Holodomor, promovida pela FASBAM – Faculdade São Basílio. São 54 painéis que retratam as vítimas do genocídio que matou 20% da população ucraniana. Os painéis retratam a tirania do governo stalinista por meio de textos, imagens e de materiais que estarão disponíveis para consulta.

Recomendando melhor organização e comunicação nos diversos eventos, a Metropolia Católica Ucraniana São João Batista parabeniza e agradece aos agentes eclesiásticos e culturais pelas iniciativas empreendidas em prol do bem e da verdade. É missão da Igreja apoiar tudo aquilo que se faz para o bem da humanidade

Secretariado Metropolitano

ORAÇÃO PELOS FALECIDOS DO HOLODOMOR

Curitiba, 24 de novembro de 2018

Ó Deus, Senhor do universo e da história, lembrando os falecidos do Holodomor – a morte por fome provocada pelo regime soviético de molde stalinista, com milhões de vítimas, colocamo-nos humildemente diante de sua majestade para, primeiramente, reconhecer as suas obras para o bem da humanidade e também nos questionarmos sobre os malefícios causados à humanidade por grandes malfeitores e pecadores.

Senhor Deus, pela sua eterna sabedoria criastes tudo o que existe e no auge da criação colocastes o homem, concedendo-lhe o livre arbítrio – a liberdade e entregando-lhe a responsabilidade de continuar a obra de sua criação. Vós guiastes sabiamente seu povo eleito por meio de seus líderes escolhidos: Abraão, Moisés, Judite, Ester, Isaías, Jeremias e tantos outros. Na plenitude dos tempos, enviastes seu próprio Filho Jesus Cristo para a salvação da humanidade, cuja missão, sob a assistência do Espírito Santo, tendo à frente os Papas e outros líderes, santos e santas, foi levada adiante pela Igreja: São Pedro, São Paulo, Gregório Magno, Leão XII, Pio XII, João XXIII, Bento XVI, São João Paulo II, Papa Francisco, nosso atual amado líder espiritual. Na história do cristianismo ucraniano, vossa benevolência, Senhor, nos agraciou com grandes personagens: Santa Olga, São Volodemer, São Josafat, beatos mártires da era do regime soviético, os grandes metropolitas Andriy Sheptytsky, Iosyf Slipey, Lubomyr Husar e o atual Arcebispo Maior Sviatoslav.

Mas também, Senhor, estamos conscientes de que os erros e pecados de alguns filhos da Igreja causaram prejuízos e divisões, restringindo a realização do seu Reino entre nós. E ficamos muito entristecidos com muitos líderes políticos que mancharam várias páginas da história e denegriram a própria a humanidade. A simples lembrança de seus nomes nos deixa estarrecidos e perplexos, fazendo-nos questionar e duvidar sobre o real significado da vida e da existência humana. De forma negativa e dramática, esses personagens anti-humanos também nos colocam diante desta assustadora possibilidade: a do mau uso da liberdade que, sem a instrução da Sua sabedoria e vontade, conduz aos atos mais atrozes e desastrosos que a humanidade já vivenciou, mostrando a dolorosa realidade de grandes pecados históricos e sociais.

No ano passado, em Roma, na oração do Angelus do dia 26 de novembro, o Papa Francisco saudou de modo especial a comunidade ucraniana, que recordava a tragédia do Holodomor: “Rezo pela Ucrânia, a fim de que a força da fé possa contribuir para curar as feridas do passado e promover hoje caminhos de paz”. Senhor, diante de tamanha barbárie cometida contra o nosso povo, nossos irmãos e irmãs, católicos e ortodoxos, nossa fé tende a fraquejar. Porque se trata de uma ferida muito profunda cravada na alma ucraniana. É também uma ferida aberta no coração da humanidade: como aceitar que um líder, que deveria ter buscado o bem comum, fosse capaz de provocar fome, administrando uma das terras mais férteis do mundo, para dizimar todo um povo, toda uma etnia? Do ocorrido, documentalmente registrado, está exposta diante de ti, Senhor, essa ferida que ainda lateja, pulsa e dói muito, dói sem parar. Nossa esperança se esvanece percebendo que a fome mata muitos irmãos e irmãs pelo mundo afora. Nosso amor se apequena, sentindo a impotência em superar a desigualdade e a injustiça social que impera em nossas sociedades.

Esta nossa oração é um lamento, um desabafo, um grito de dor e de protesto. Nossas pobres palavras não são capazes de expressar toda a nossa dor e todos os nossos sentimentos diante da proposital catástrofe humanitária, que foi o Holodomor. Talvez, Senhor, o silêncio possa falar mais do que nossas palavras, sempre incompletas e limitadas. Talvez, em nosso silêncio, possamos ouvir melhor a voz daqueles milhões de seres humanos que foram silenciados pela fome atroz. Eles foram lançados no silêncio do sepulcro desrespeitoso, sepultados em valas comuns ou nem mesmo sepultados, sem o toque da solidariedade e sem a voz das orações oficiais das nossas Igrejas, banidas pelo sistema totalitário. Além disso, para ocultar o crime, tentou-se sepultá-lo com suas vítimas na cova do silêncio histórico, fundamentado na distorção e na mentira, práticas do mesmo sistema. Mas é no silêncio, Senhor, que poderemos captar a sua voz inspiradora e iluminadora diante das trevas da história provocadas pelos monstros, inimigos seus, inimigos da verdade e do bem, inimigos da Igreja e da humanidade.

Façamos, portanto, um minuto de silêncio em honra dos nossos holodomortos – vítimas do stalinismo desumano.

UM MINUTO DE SILÊNCIO

Senhor, perdoa-nos pela nossa dificuldade em perdoar esse horrendo crime contra a humanidade – o genocídio Holodomor. Perdoa-nos a nossa fraqueza. Aceitamos que o amor e o perdão é o que pedis de nós, mas para o bem de toda a humanidade, queremos o reconhecimento dos irmãos e irmãs de outros povos, que ainda não o fizeram, de que o Holodomor foi um crime contra a humanidade, foi um verdadeiro genocídio, a fim de que crimes, como os do nazismo e do stalinismo, jamais se repitam e para que seja feita a justiça, também a justiça histórica, em prol da verdade. É a grande graça que Vos pedimos humildemente.

Senhor, que a nossa fé não esmoreça, que a nossa esperança não se apague e que o nosso amor não enfraqueça jamais. Pelo poder do Seu Espírito, cure, Senhor, as nossas feridas históricas, sociais e pessoais! Dai-nos a força para que a Ucrânia e seu povo fiel e amado, tanto na Terra Mãe, como em outros rincões sejam instrumento da tua paz! Que o nosso Brasil, que acolheu os descendentes dos nossos mártires e heróis – vítimas das atrocidades de um regime desumano encontre o caminho do desenvolvimento com seguridade e paz social!

Oração da Panakheda: “Ó Deus, Senhor da vida, Vós que vencestes a morte e aniquilastes o poder do maligno, e destes a vida ao mundo, concedei o descanso eterno aos vossos servos holodomortos – vítimas do genocídio Holodomor, no jardim florido, no lugar de luz e paz, onde não existe dor, nem angústia, nem sofrimento; Vós que sois o Deus da bondade e amor, perdoai-lhes todas as faltas que eles cometeram por palavras, ações e pensamentos; porque ninguém que passa nesta vida está livre do pecado; só Vós sois sem pecado e a vossa verdade é eterna, e a vossa palavra é a verdade”.

Cantando: “Porque a Vós, Cristo Deus nosso, sois a ressurreição e a vida. Vós sois o descanso eterno dos vossos servos holodomortos – vítimas do genocídio Holodomor; a Vós rendemos glória, junto com o vosso Pai eterno e com o Espírito Santo, fonte de bondade e vida, agora e sempre”.

Povo: Amém!

Dom Volodemer Koubetch – Arcebispo Metropolita